Óculos escuros

sexta-feira, 24 de abril de 2009
Artesanato de Antonio de Castro

Eu estou com um novo objetivo. Me acostumar com meus novos óculos escuros. Por uns três meses eu fiquei parando, em tudo quanto era loja de óculos em tudo quanto era shopping, para achar uns óculos.

Procurava na internet, procurava até no camelô. Vai que achava um tesouro. Acontece com algumas pessoas. Não comigo.

Eu já tinha um modelo pré-definido. Algo na cabeça. Já sabia como queria a armação, a cor da lente, o tamanho. Eu já sabia tudo. Mas quem disse que achava o puto dos óculos?


E quanto mais eu andava na rua, os dias passando, mas eu via os meus óculos no rosto dos outros. E nunca combinava. Nunca. Eu olhava aquilo, fazia cara de nojo, mas minha vontade era perguntar em que loja aquela pessoa, que não tinha nada a ver com aqueles óculos, tinha achado-os. Para ver se encurtava o caminho até eles.

Mas eu tinha bom senso o suficiente para me conter. E ficar de longe, sempre, olhando os óculos que desfilavam em rostos assimétricos pelo meu caminho. Invejando cada uma daquelas curvas assimétricas daquelas pessoas.

Até que um dia, sem querer, fazendo compras, sem pensar em óculos, o objetivo eram camisetas... Nesse dia, eu acho. O maldito dos óculos.

Eu olhei para ele. Experimentei. Não era de marca, não sei nem o nome do quiosque do shopping onde eu estava parado. Mas já estava lá, parado, com ele no meu rosto, me admirando no espelho.

O preço era convidativo. Talvez mais um sinal para que eu não compre. Vai ver era de má qualidade, pode até me dar dor de cabeça. Mas tava tão bem em mim... Combinava com meu rosto, se encaixava no meu nariz, justo o nariz que eu acho que não se encaixa com nada. O vendedor era um amor, simpático. Achei até que era gay. Mas eu to naquela fase horrível onde todo mundo pode ser gay.

Eu já estava com algumas bolsas. Tinha sido um longo dia, minha rescisão fora embora. Definitivamente. Mas eu queria uns óculos há tanto tempo... E se eu não usasse porque não tinha marca? Eu sabia que isso já tinha acontecido algumas vezes comigo. Mas eu não sou assim. Era uma oportunidade de não ser muito vazio. Eu nem posso. Eu não sou rico. Tenho que me acostumar com coisas sem marca, só não me acostumo com coisas sem qualidade.

Vou levar!

Na última hora, quando eu tirei meu cartão de débito e disse para passar, o cara disse que o meu cartão estava fora do ar. Ainda pensei que poderia ser um outro sinal. Um para eu não comprar. Deus sempre prega essas peças. Inteligentes são aqueles que percebem e não caem.

Não, fui até o caixa do banco, saquei o dinheiro e voltei para o quiosque. A bolsa já estava pronta. Paguei e levei.

Cheguei em casa. Feliz com as compras. Fazia tanto tempo que eu não fazia isso. Horas de compras. Horas me divertindo. Eu e meu instinto consumidor.

Peguei os óculos escuros e experimentei de novo. Me olhei, mostrei para a minha mãe. Ela até gostou. Mas agora algo estava diferente. Meu nariz estava amassado. E a lente era grande demais. De verdade. Como eu comprei um troço tão grande?

Mandei minha mãe experimentar, também não ficou bem. Mas melhor que tenha sido assim. Se ficasse bem nela seria um problema maior. Grande. Amassado. Marrom. Sei lá. Não ia dar.

Eu ficava ali. Horas olhando para ele na minha escrivaninha. Ele para mim. E quem disse que havia coragem para levá-lo para a rua? Comentava com meus amigos dele. Falava dos óculos. Todo mundo sempre queria me ver com ele, para ver se era tão estranho assim. E eu nunca criava coragem.

E olha que tem feito sol de dia. Eu fico com a minha vista ardendo, pensando nos óculos que eu tenho em casa. Me esperando na escrivaninha. Como se fossem meus. Mas não são. Nunca serão.

Mas os óculos são tão bonitos. Tão bonitos. Eu coloco ele no rosto. Me olho no espelho do meu banheiro. Não! Droga! Dinheiro gasto a toa. O daquele cara na barca era muito mais legal.

Ou talvez eu só esteja desacostumado a me ver de óculos. Através dos óculos. Talvez seja questão de adaptação. Pode ser, né? Coloco os óculos mais uma vez, enquanto faço qualquer coisa na internet, e decido: Vou me acostumar com ele. Vou ficar um bom tempo usando ele em casa, até ele fazer parte de mim e eu me sentir a vontade para ir à rua com ele.

A tela do meu computador está filtrada enquanto escrevo esse post. A página parece ter bem menos luz do que realmente tem e eu só percebo isso vez ou outra, quando afasto os óculos do nariz, para coçar. De vez em quando coça.

Mas depois passa.



Ouvindo: 1, 2, 3, 4 – Plain White TS


7 críticas:

Gato de Cheshire disse...

Menino... Se é pra se acostumar com o estético, use ele qdo for funcional... Na rua... qdo tiver sol... Ai pode ser até q de cara vc n ache tão legal, mas pelo menos vai te proteger do sol e ai vc vai usando, usando, usando.. Uma hora acostuma..
Usando ele em casa, fazendo a linha Katia cega, só vai restar o estético, e ai vai ser como procurar desenho em nuvens, toda vez q vc olhar no espelho vai encontrar um outro formato... E outro, outro, outro...
Assim é tudo na vida... O que é bom e não funciona vira sofismo... Da função q as coisas ganham vida propria...
Fika a dika

Arsênico disse...

Gurih... sou terrível pra comprar óculos tb... o que tenho já está todo fudido... faz 3 anos que o comprei... mas o amo... não encontro nenhum outro que dê certo com meus traços...

***

du disse...

.cada um com seu processo de adaptação....

.o importante é sentir-se bem, a vontade...

.abraço

Gato de Cheshire disse...

Desde qdo paixão platonica precisa de autorização oooww.. cabeção.. rss

Latinha disse...

kkk Achei o máximo esse jogo de conquista com o óculos... e espero que vocês se "apaixonem" logo...

Grande abraço! ;-)

Fabiano (LicoSp) disse...

eu tenho um grande problemas com oculos escuros... eh uma dificuldade achar algum e qdo acho um legal perco no mar...rs

uma forma legal de achar oculos bons é experimentar e perguntar para mulheres, normalmente tem bom gosto melhor q vendedores homens...rs

Nadezhda disse...

Eu ainda não encontrei o meu óculos.

Preciso trocar o meu normal mesmo, e tenho até medo do que eu vou escolher.

;)