Pai

sábado, 1 de agosto de 2009
Artesanato de Antonio de Castro

Tem um tempo que não penso no meu pai. Tem um tempo que ele desapareceu. Tem um tempo que não sinto pena de mim mesmo por esses motivos. Minhas razões preferidas estavam sendo a solidão, a falta de um companheiro, problemas com meus amigos e outros que elejo conforme vão acontecendo.

Mas meu pai, que sempre foi o protagonista dos meus problemas, das minhas frustrações, de repente havia desaparecido. Não só da minha vida, mas também dos meus culpados eleitos!

Essa semana ele voltou. No domingo, enquanto estava indo para casa de uma amiga almoçar, encontrei com ele na rua. Havia meses que não nos cruzávamos, havia meses que não trocávamos palavras. E esses meses ainda existem. Porque o máximo de conversa que tivemos naquele dia foi um “oi” e um “tchau”.

Eu fiquei vendo ele indo, indo embora e lamentando como aquela nossa relação chegou a esse ponto. Esse onde ele não se importava comigo, esse onde eu não me importava com ele, esse onde ele andava sozinho pela rua em pleno domingo na hora do almoço, para almoçar num botequim, comer qualquer prato feito bem sujo, sozinho.

Durante a semana assisti O Casamento de Rachel e de repente me deu uma pena da protagonista. Me emocionei com as coisas que ela estava passando e me coloquei numa posição de um dos personagens daquela família não vendo como poderia deixar de ser compreensivo com Kim.

Pra quem não sabe, o filme é sobre uma garota, a qual é concedida uma saída durante o tratamento de dependência química, para que ela possa ir ao casamento da irmã. Essa é a oportunidade para que a gente assista às diversas frustrações dessa família, aos diversos traumas causados justamente pela menina que é mais traumatizada.

Meu pai é dependente químico e com certeza passou por todas as situações que a protagonista do filme passa. Todas essas situações às quais eu fui compreensivo com ela e não com ele. Mas na vida real parece tão difícil de compreender. É tão injusto meu pai estragar a minha vida e a da minha família por ser um fraco. Enquanto isso a Kim era só uma dependente química.

Eu assisti ao filme com meu pai na cabeça, meu pai que havia encontrado no domingo, aquele que achei que merecia estar almoçando sozinho por ter destruído minha família. Castigo.

Minha mãe, ao meu lado enquanto assistíamos ao filme, fala sobre meu pai, não me deixa esquecê-lo. E fala sobre ele se lamentando dias atrás, por ser uma pessoa sozinha, por já ter perdido duas famílias. Quando ela disse isso, não me lembrei da gente como uma família: eu, ela, minha irmã e meu pai. Simplesmente essa imagem não me veio à mente.

Talvez a gente nunca tenha sido uma família. Talvez a gente não seja até agora. E eu me preocupo com contatos de MSN, com companhias para baladas, enquanto meu lar está despedaçado, enquanto minha mãe não vive, enquanto minha irmã atura, enquanto meu pai vagueia.

Mas todo mundo tem seus problemas e me alegra não pensar nesses todos os dias, me alegra nem que para isso eu tenha que pensar em problemas mais superficiais. Me sinto menos coitado. E acho que os problemas mais superficiais me sugam menos a alma. Me deixam menos fraco. Pensar no meu pai, mesmo que por uma semana, me tira a imunidade.

Ouvindo: I’m Ok – Christina Aguilera

4 críticas:

Latinha disse...

Apesar de viver e trabalhar com tecnologia, devo concordar com você que ela é meio chatinha as vezes... Mas mesmo fria e "sem sal" ela já me trouxe coisas muito boas...

Belo e verdadeiro post...
Sinceramente não sei o que dizer, são questões delicadas e muito sensiveis... Ao ler, a primeira coisa que me veio a mente... é que apesar de tudo, ele foi, é, e sempre será teu pai... e de alguma forma seria legal que vocês pudesse ter um relacionamento de verdade - até onde for possível.

POr mais que muitas vezes desejamos nos importar... no fundo nos importamos... e isso é um sinal que não pode ser ignorado. Vencer a magóa, o ressentimento, nunca é fácil... mas com certeza vale o esforço... nem que seja para ter a certeza que tentamos tudo!

Abração!

Candy disse...

A vida real é sempre mais complicada do que os filmes. Sempre. Personagens são taxados, não pensam e são programados. Seres humanos vivem! Fazem coisas inesperadas e surpreendem.

Só que... O que importa não é o que fizemos, o que importa, é o que vamos fazer.

Digo isso, pra você pensar sobre seu pai. Me desculpa por te propor feletir sobre isso, mas eu tenho certeza que entenderá.

Bjos

Paul disse...

Nossa, sem palavras. Alguns relacionamentos familiares são realmente complicados. E cada um é único. Nada do que eu possa falar vai mudar o que vc já passou.
Mas é interessante como em casos não afetivos, como no filme, somos mais complacentes do que na nossa vida.

A.M.B disse...

familia eh assim mesmo.

pemsei em vc hj.
o dia td.

abracaooo!