Dia de mentiras

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Artesanato de Antonio de Castro

Hoje foi dia de conversas, das mais longas, sem pretensões maiores que o único intuito genuinamente inocente de se abrir um pouco. Parando para pensar em como tem sido minha vida chego à conclusão de que nunca pude me abrir de verdade.

Conversas sobre desejos e vontades sexuais não seriam das mais fáceis para mim, quando eu era o único menino de treze anos que ficava excitado ao ser encostado por um dos amiguinhos da sétima série ou quando via os pêlos pubianos finos e novos que nasciam nas regiões superiores ao pênis dos meninos da turma.

Não seria aceito com muita normalidade um assunto como esse. Com o tempo percebi que nem eu acho tudo isso muito normal e que não é meu desejo assumir isso ao ponto de compartilhar com outras pessoas, que por mais que elas sejam minhas amigas e tudo o mais - sem preconceito algum, eu me sentiria mal, me sentiria envergonhado por ter pensamentos tão sujos.

Sintoma do quão preconceituoso eu mesmo sou, mas enfim...

A solução encontrada por mim durante esses anos em que amadureço e convivo cada vez com mais pessoas foi mentir. O máximo possível e com o máximo de convicção. Deveria ser convincente, na medida, nem mais nem menos, nem exageros, nem falta de informações.

Digamos que eu aprendi a arte de convencer. A pessoa sempre que me conhece já sabe que eu sou gay e, ao contrário do que é imaginável, quanto mais me conhece, mais certeza tem de que eu sou heterossexual, mas se engana.

Hoje foi um dia para mentir. Para várias pessoas. Falar sobre minhas necessidades sexuais, substituindo um pesado corpo de homem sobre o meu por um delicado corpo delgado de mulher. Substituindo a virilidade de um homem da minha idade pelos calores e a beleza de uma jovem. Fingindo falar da experiência de uma mulher adulta, quando o que eu realmente queria era o instinto protetor de um homem de 30 anos.

Um homem de 31 anos. Minha última descoberta na sala de bate-papo. Ele veio conversando normalmente, me deu seu celular, seu msn. Estamos conversando há três dias, sobre vários assuntos.

Sobre o que pensamos um do outro, sobre como seria nós dois na cama, sobre como seria a gente namorando. Para que lugares iríamos.

Às vezes acredito que estou ficando louco e me envergonho ao me encontrar nesse ponto de carência. Chegar ao ponto de entrar em uma sala de bate-papo, conhecer uma pessoa e acreditar que pode dar certo algo que começou tão artificialmente.

Mas aí me entrego, esqueço e vivo o que há para ser vivido. Sei que falar em três dias é ridículo, mas já é muito para alguém que não tem dado sorte com a internet e que todas as pessoas enganam. Sempre falam que vão me mandar e-mail, que vão me ligar e nada.

Ele pelo menos já conversou comigo dois dias e em todos os momento faz questão de dizer o quanto me acha bonito, que tem medo de eu não gostar dele, que teme eu enjoar dele como eu enjoei do meu ex-namorado.

Que teme eu ser muito novo e não estar preparado para um namoro sério. Mal sabe ele que tudo o que eu quero é alguém que me queira de verdade, que me trate bem e que me dê atenção. Nada mais.

Mas atenção não tem sido um problema para mim. Meu amigo hetero voltou a ser meu amigo. Disse com todas as palavras esses dias. Que eu sou seu amigo. Eu gosto dele. Apesar de tudo que ele fez, das bobeiras infantis e tudo mais. É carinho mesmo, que em algum momento eu confundi, mas que agora já consigo ver que é só amizade. Quem sabe meu primeiro amigo hetero?

Hoje voltamos mais uma vez juntos, como tem sido desde a última viagem de metrô descrita no post anterior. Tem sido ótimo, ele me procura na minha sala durante o serviço e perdemos horas falando da vida, como era antigamente.

Ele me oferece um hambúrguer na volta do trabalho, amendoim e outras coisas. Paramos no posto de gasolina para ele encher o tanque enquanto vai ao caixa 24 horas pegar dinheiro para nosso lanche. Eu fico no carro esperando e quando ele volta me sorri de um jeito lindo e me dá uma latinha de coca cola para eu beber até chegarmos à barraquinha do sanduíche.

Lanchamos, ele faz questão de pagar, me abraça, me leva de volta para casa, me convida para ir de carro trabalhar no dia seguinte. Me deixa na porta de casa e fala para eu ir direto para casa. E me sorri, dando até amanhã.

E tudo isso foi hoje. Hoje percebi que essa é a vida que pedi a Deus. Um namorado que faça tudo isso, que cuide de mim desse jeito. De um jeito que um irmão mais velho cuida de um mais novo. Do jeito que um pai cuidaria. Vai ver é isso. A falta de um pai.

Vai ver é isso. A falta de um namorado.

4 críticas:

Râzi disse...

Hum... menino... sei não...

Eu, cá dos meus 36 anos, acho muito estranho essa atenção toda de um hétero...

Eu acredito em amizade, sim, porque tenho pessoas que saber de mim e me tratam super bem... mas nada nesse nível!

De repente, ele mente melhor que vc...

Beijão!

Goiano disse...

ihhh o razi tirou as palavras da minha boca!
entao vou reforcar o que ele disse e te incentivar a descobrir o que o moço guarda na intimidade.
bjos

Nadezhda disse...

Parece que todo mundo pensou a mesma coisa pra comentar.

Quem sabe esse seu amigo não está descobrindo algo novo na vida dele, e você está fazendo parte disso?

Vai ver, você nem precisa procurar muito longe, para encontrar essa vida que sempre pediu à Deus.

;)

Talvez eu conte... um dia. disse...

Todo mundo tá certo...
Algumas coisas podem ter mudado na cabeça dele, assim como pode ser só uma confusão... estilo a que aconteceu com você!
Pode ser que ele minta também... tenha preconceitos com ele próprio, com os próprios sentimentos e por isso tenha se afastado de ti!

Vale a pena esperar...