Reticências

quarta-feira, 12 de março de 2008
Artesanato de Antonio de Castro

Um e-mail inesperado pode deixar o seu dia muito confuso. Uma interrupção boba pode acabar com uma relação entre mãe e filho. Umas pinceladas de tinta guache podem deixar você envergonhado. Risadas por causa do seu jeito de falar fazem você sentir vontade de morrer.

De novo.

Tudo começou ontem, quando depois de um longo dia de trabalho seguido por horas na recém-iniciada faculdade, a caixa de e-mail foi aberta e revelou uma mensagem que eu não esperava.

A menina com quem transei a primeira vez – no caso, sexo heterossexual – havia escrito um conjunto de palavras que diziam muitas coisas. Tantas que eu não sabia nem o que entender.

Sim, a mesma menina que destruiu meu reveillon, a mesma que decidiu de última hora arruinar todos os planos que eu tinha de ter uma virada de ano pela primeira vez romântica.

Lá estava seu nome como o destinatário. Assunto: ... nada mais que reticências. Acho que nem ela sabia o que escrever. Imagino que ela nem sabia por que escrevia. Mas escrevia. Tão cru, tão simples. Mas tão complexo.

De repente lembrei como estou no fundo do poço. E como tenho pensado na hipótese de começar a investir em relações heterossexuais, para descobrir se toda a facilidade de um relacionamento permitido não é o suficiente párea me fazer desistir de ser homossexual.

De repente vi nela e naquele e-mail uma oportunidade de sair do fundo do poço, ainda que não seja a oportunidade tão intensamente sonhada por mim.

A solução era conversar com a minha mãe, aproveitar que coisas sobre mulheres eu posso falar. Tudo q posso falar é extensivamente debatido por mim com ela, servido de via de escape para todas as coisas que penso e/ou vivo e não posso comentar.

Mas o Big Brother estava muito interessante e a família do Rafinha estava aparecendo. De repente eu sou trocado, no alto da minha confusão com aquele e-mail tão recentemente lido, por um participante da oitava edição de um reality show mas que manjado.

De repente, e eu não sei se é exagero, mas percebo que minha mãe não se interessa pelo o que eu passo e não se sente feliz por eu ser um filho atípico e sentir necessidade de falar sobre a minha vida pessoal.

Hoje foi o trabalho. Horas quase perdidas, não fosse a diversão que acontece com meus amigos. E a faculdade de novo.

Trote. No terceiro dia de aula, várias tintas e eu disposto a cooperar e parecer menos insuportavelmente anti-social do que sou realmente. Brincadeiras até um pouco constrangedoras, mas tudo em nome da felicidade de estar dentro de uma faculdade tão disputada, compondo um grupo seleto de pessoas candidatas a serem os futuros bem sucedidos engenheiros químicos.

Mas nada resisti às risadas, às piadas, à maneira pejorativa que me trataram na hora da apresentação. Eu seu que não é preconceito. Eu diria que é estranhamento. Não disfarcei minha opção sexual, ainda por cima estava nervoso e nem pensei se daria ou não pala de gay. Simplesmente falei meu nome, rezando para que aquele momento acabasse logo.

E não demorou a acabar, foi só o tempo de a pessoa que me entrevistava rir, despreparado para o meu jeito de falar, comentar duas palavras, todos rirem e ele me mandar de volta para o meu lugar com um misto de pena por eu ser um homossexual encubado e arrependimento antecipado por qualquer tipo de piada preconceituosa que ele pudesse fazer ao me zoar.

Ele não fez, mas ainda assim me magoou com todo o resto. Para mim, acabara ali.

Eu não queria mais, eu não estava mais feliz. Eu só queria ser diferente do que sou. Eu só queria não dar motivos para falarem de mim.

4 críticas:

A.azul disse...

ah.. é o vício maldito!
hehehe
mas vou diminuir, promessa..
po, foi ruim assim o trote? quando tive o meu foi super legal, eu acho que serve pra dar uma integrada no pessoal que chega com os que já estão.. leva na boa que em uma semana você nem vai lembrar mais
e aproveita essa vida da universidade hein?

^^

Nadezhda disse...

Achei que esse tipo de coisa fosse mais leve na faculdade, mas pelo que vejo, é bem pior.

Sempre tive amigos que mesmo sendo heteros, tinham vozes bem finas. E sempre tiravam sarro. Até hoje, às vezes eu sinto uma vontade quase incontrolável de quebrar a cara dessas pessoas. mas sempre penso que não vale a pena. E não vale mesmo.

O ser humano tem que evoluir, e muito ainda.

;)

Râzi disse...

Meu querido, não sei nem o que dizer, mas vamos lá...

Muitos pais não tem o traquejo pra lidar com os problemas dos filhos, ainda mais quando são problemas afetivos. E vc tem certeza que sua mãe não sabe que vc é gay? De souber, vc vir pra falar de garotas pode tê-la deixado confusa...

Agora, quanto ao trote... rapaz, eu tinha tanto medo disso, e acabou que não passei pela experiência...

Sei que não é um acoisa fácil uma pessoa nos ridicularizar, ainda mais quando estamos frágeis... mas a maioria das pessoas não percebe o que está fazendo...

Força, menino... beijão!

Fláh disse...

"Eu só queria ser diferente do que sou. Eu só queria não dar motivos para falarem de mim."

Eu acho que vc nao deve querer ser diferente viu?
Tá quem sou eu pra falar, mas vc ficaria feliz nao sendo quem vc é?

e muuuuito obrigada pelo meme viu?
eu a m e i de verdade, se tivesse visto antes tinha postado ele.

Brigadaaao.
gosto do novo visual de lá?

Aiiii que bommm. ^^