O Diabo a 4

segunda-feira, 20 de abril de 2009
Artesanato de Antonio de Castro

Hoje eu aprendi como o Diabo deve ser. E fui.

Eu conversei, falando besteiras engraçadas, como se eu fosse a pessoa mais divertida do mundo, medindo meticulosamente o teor de timidez para não parecer qualquer um. Foi tudo de caso pensado. Desde a hora em que tirei o tênis até a hora que sentei no sofá esperando ele para ir embora.

Eu gemi. Alto suficiente para ele ouvir e achar que eu estava gostando e discreto o bastante para parecer que eu estava tentando conter todo aquele prazer.

Eu deixei ele fazer de um tudo. Mãos desconhecidas me tocavam o corpo. Me sujavam a alma. Mas eu estava gostando. Eu estava precisando de um pouco de aventura. Ele era lindo.

Eu apertei as costas dele, levei tapas. Repetidos. Contados. Oito. Eu estava concentrado em mim. Eu tinha esquecido que estava acompanhado. Minha intenção era a farsa. Minha intenção era mentir.

Para mim mesmo. Eu estava possuído pelo Diabo. E eu me comeria, se fosse outra pessoa. Ou se fosse possível alguém comer a si próprio. Talvez seja. E se for, eu descobrirei e o farei.

Eu fiquei excitado na hora certa. E parei também no momento mais apropriado. Levou o tempo que tinha de levar para ele ficar louco sem que eu perdesse o controle.

Eu me vesti, eu disse que tinha acabado. Foi bom, ainda que eu me sentisse como um robô. Um perfeito robô. Daqueles que só o próprio robô sabe que é robô. Ele pediu para que eu ficasse e não entendeu minha posição.

Pensando bem, agora, nem eu entendo.

Nós nos despedimos. A cachorra latiu muito, eu lhe disse um tchau. Que ele gravará na memória.

Ele ainda estava excitado. Na rua, sob o short fino, excitado. Eu não podia fazer mais nada. Como se a solidariedade que me possuíra tivesse limite. Como se eu tivesse limites. Mas eu não tinha. Eu tinha ultrapassado todos eles.

As músicas iam de Elis Regina a Gal Costa, passando por Jussara Silveira e Chico Buarque, além de Chico Buarque por Jussara Silveira. Ainda tocavam no notebook. E o som saía pela janela ao mesmo tempo que os latidos. Nós conversamos no portão.

Ele disse que queria tentar. Eu disse que também.

Ele era lindo mesmo. Ele era um homem. E gostei de me ver comandando um homem. Dizendo quando aquilo tinha que parar. Nem sei se eu queria parar. Mas sei que parar aquilo me dera mais prazer do que qualquer coisa que poderia se passar depois daquilo.

Eu fui andando de volta para o metrô. Eu lanchei no McDonald’s. Quarteirão. Típico. Entrei no metrô e liguei para a minha amiga, intimei a ela para um passeio no shopping. Eu cheguei ao shopping, contei para ela, comprei seu presente de aniversário. O presente do meu primo.

Voltei para casa. Liguei o rádio e escolhi uma música que me fizesse sentir melhor. Mas está tão difícil...

Ouvindo: Use Somebody – Kings Of Leon

10 críticas:

Paul disse...

Outra pessoa!!

du disse...

.o auto-controle é um desejo de consumo. porque ele nos permite ser racionais mesmo em situações que fogem dos sentidos. eu tento, mas ainda não cheguei lá. e nem sei ao certo se um dia chegarei...

.abraço

Marcelo Novais disse...

Nossaaa
Blog lindooo
super me identifiquei com o texto!Parabéns!

Latinha disse...

“Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso. E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas supostas, invento palco, cenário... para viver o meu sonho entre luzes brandas e músicas invisíveis.”
(Fernando Pessoa)

Belo texto!

Arsênico disse...

Nossa... chocado com sua desenvoltura... até o diabo ficou chocado... tenho certeza... hahaha...

***

Fernando disse...

Hot!! Adorei o texto! Obrigado pela visita, voltarei mais vezes. Abs!

Fabiano (LicoSp) disse...

muito bom o texto... e a identificacao com o momento... nada como ter autocontrole... para curtir e ser curtido

bjs do lico

Marcelo Novais disse...

Tenho nome de ator neh?rsrs
acho bom pke faço teatro...aew geral vai assistir a peça achando q eh o ator famoso...koaksa
estudou onde aki em Nilópolis hein?
você é de que parte do Rio?
Atalizei o blog volta?
Fuiz!

Autor disse...

Quem nunca agiu e se sentiu assim?

Fernando disse...

Olá. Tem selo pra vc lá no blog. Gostei do teu jeito de escrever mesmo, tá vendo? ;-) Bjos.