domingo, 12 de abril de 2009
Artesanato de Antonio de Castro

Eu estava digitando algumas coisas no computador. Conversando com alguém despretensiosamente pelo MSN. Meu primo, de quatro anos, entra no meu quarto falando alguma coisa sobre minha mãe estar chorando, sobre não terem contado algo a ela. Eu ignoro, pois sei que mais cedo ou mais tarde a história chegaria o meu ouvido por fontes mais confiáveis. Continuo conversando, aquele papo estava bem mais interessante. Minutos se passaram enquanto a conversa foi tomando o foco central da situação. E quando eu menos esperava, ao olhar para a porta de entrada do meu quarto, vejo minha avó entrando de cadeira de rodas. Minha avó que passara mais de 15 anos em uma cama sofrendo com crises de convulsão e problemas de reumatismo. Minha avó, a única que me acompanhara como avó por um período, mesmo que esse período não tenha passado de quatro anos. Minha avó que morrera magrinha, vestindo uma camisola de algodão, os cabelos lisos, oleosos e grisalhos lhe caindo pelo rosto enrugado na maioria das vezes. E quando não lhe caíam, é porque estavam penteados para trás e ainda molhados. O rosto era largo ainda, mesmo que ela estivesse muito magra, a pele era horrível de tão acabada, a boca já não tinha muitos dentes, nem dentadura. Viva mole, fechada, como se não houvesse força para abri-la. A voz eu não me lembro como era e nem haveria de lembrar agora, já que ela não falaria. Mas tinha certeza que era a mesma de sempre. Oito anos desde a sua morte só lhe fizeram envelhecer maios ainda, emagrecer mais ainda, muito mais. Ela estava tão magrinha, tanto que eu nem conseguia imaginar como tinha força nos braços fininhos para levar a cadeira de rodas da porta do meu quarto até mim, como estava tentando. De repente, no caminho que ela traçava e eu a observava, tudo ficou claro. Ela não tinha morrido, minha tia, a mais velhas das irmãs de minha mãe, tinha forjado sua morte e estava desde então tomando conta dela. Minha mãe com certeza já deve tê-la encontrado, era parte daquela história que meu primo de quatro anos tentava contar. Eu nem queria pensar nisso. A felicidade de tê-la viva, me alegrou de tal maneira, que eu só conseguia sorrir, sem me mover até ela, esperando-a se aproximar de mim, lentamente. Parece que durou uma eternidade, e nessa eternidade minha cadeira ia mudando de formato e de altura. Eu estava diminuindo, conforme ela se aproximava eu meu aproximava mais e mais do chão, sem sair do lugar, e minha cabeça se inclinava num ângulo de 180 graus, até ficar totalmente na horizontal. Nesse momento, eu não enxergava mais a minha avó no meu quarto, mas sabia que ela estava li, sentia sua respiração às minhas costas. Não estava mais sentado, estava deitado de barriga para cima, em minha cama. A boca dela tocou a minha testa. A boca fechada, enrugada e sem dentes dela. A saliva tinha o mesmo cheiro forte. Cheiro ruim, cheiro da saliva da minha avó doente. Senti o beijo de bênção na minha testa e sorri, acordando. Ainda que não tivesse aberto os olhos. Sabia que estava sonhando. Um sonho que já acabara, porque agora eu estava sozinho no meu quarto escuro, acordando de um sonho. Não queria acordar. Tentei me apegar a qualquer elemento do sonho, como quem se esforça par não perder um, mas foi em vão. Abri os olhos e sorri de alegria. Fora o primeiro sonho com minha avó desde a morte dela. E não veio em um mau momento. Senti que ela veio me abençoar, mostrar que olha por mim, me proteger e me dar sabedoria, tudo através daquele beijo. Olhei no relógio, eram 01:30h, uma hora depois da hora que tinha ido dormir. Estava eufórico, assustado com a realidade do sonho. Com o sentimento que se apoderara de mim e do clima que se instalara em meu quarto agora. Saí, fui ao encontro da minha mãe que estava assistindo BBB9 na sala e fiamos conversando horas a fio sobre minha avó, sobre o sonho, sobre o que poderia significar. Choramos de saudades. E fui dormir.

Ouvindo: I Remember – Damien Rice

9 críticas:

pimenta disse...

Um dia, minha filha de então 5 anos,subiu em um toco de madeira, no meio do pátio, abriu os bracinhos e disse:
"Meus filhos, a morte não existe, assim como não existe distância para o amor"depois fez uma prece lindissima , e desceu do toquinho como se nada houvesse accontecido.
bjos procê.
Vc com certeza é alguem muito amado.

FOXX disse...

eu tb sonhei com minha avó
qndo estava em natal
e eu tb conversei com minha mãe sobre ela


e gente

lindo seu texto
e vc realmente está pensando em fechar o blog,
seria um crime amigo
um crime

e nunca um texto seu combinou tanto com a musica
o tempo foi perfeito!!!

Nadezhda disse...

Não me lembro de um sonho tão real assim.

;)

Arsênico disse...

Parece que eles vêem pra suprir um pouco da saudade que sentimos... pra nos confortar... ou mesmo relembrarnos que eles estão ali... velando por nós...

E que papo é esse de fechar o blog?... que isso honey?... ah nÓn mesmo...

umBeijo!

***

du disse...

.sonhos são combustível necessário para uma vida caminhar feliz...

.abraço

Fabiano (LicoSp) disse...

vc conseguiu passar neste texto toda a magia do momento que passou.

Estes sonhos quase reais ficam vividos em nossas memorias, é sinal de q ela esta por aí perto de voces, orando e cuidando de voces com o mesmo carinho que deve ter feito em vida.

abs do Lico

Ariel Lawinsky disse...

Como alguem disse que texto lindo!

tava passeando por blogs e achei o seu.Li tbm que vc pretende fechar o blog, n faz isso n.

Abcs.

Autor disse...

Que legal o texto.
Pode significar muita coisa.
Depende do q vc acredita, né?

A.M.B disse...

oieee !
vorteiii

q post hein!
anda bastante inspirado,
e como foi de páscoa???
não vejo a hora de por o papo
em dia hahahahah

abracaoooo