Metrô

quarta-feira, 15 de julho de 2009
Artesanato de Antonio de Castro

Eu entro no metrô, é a segunda estação, a caminho do meu novo trabalho. O ideal é que eu solte umas nove ou oito estações depois, não sei bem. São 07h25min da manhã e o carro já está um pouco cheio.

Eu tiro a mochila das costas, eu a coloca no chão, entre minhas pernas e paro de costas porta, segurando o tubo de ferro superior.

Chegamos à próxima estação, a porta se abre, entram pessoas, e o homem com óculos e cabelos cacheados continua a me olhar. Eu já havia percebido desde a hora em que entrei. Ainda que esteja de costas para ele, sinto que l está me observando.

A estação seguinte traz consigo mais e mais passageiros. O carro fica mais cheio e o homem se aproxima muito de mim. Tanto que sinto-o excitado.

Tenho pena de mim mesmo por estar passando por aquilo, tenho pena dele. Então a única pessoa que pode se excitar comigo é em um carro de metrô lotado? É uma pessoa que usa óculos de lentes muito grossas e cabelos cacheados e molhados? Nem gosto de olhar muito pra ele.

Afinal de contas, eu estou tão sozinho. Faz semanas que eu não tenho ninguém. E só faltam umas seis estações. Chegamos a mais uma e ficamos mais próximos. A mão dele toca a minha no tubo de ferro, fazendo um carinho discreto, mais ainda assim é carinho. Eu sei que é. E aumenta minha pena por ele.

Ele continua excitado, ele passa a outra mão nas minhas costas, ele levanta meu casaco e toca a pele das minhas costas, próximo à minha bunda. Ele toca a minha bunda, por cima da calça jeans e se aproxima ainda mais de mim.

Sinto sua respiração na minha nuca, sinto seu toque na minha mão, sinto seu pênis enrijecido. Também fico excitado. São mais cinco ou quatro estações, não me lembro bem, isso dá no máximo dez minutos. Dez minutos de excitação, dez minutos de toques ele era só um desconhecido
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Minha amiga me liga para sair, a idéia é ir a um samba nas Laranjeiras. Tenho medo de encontrar o cara do chat que encontrei, com quem fumei maconha, com quem me deitei, com quem não tive coragem nem quis transar. O homem de 39 anos.

Mas ainda assim vou. É samba e se eu encontrasse ele lá seria fácil: não nos cumprimentaríamos, não nos falaríamos, tenho certeza que l também não quer me rever nem bater um papinho comigo depois do escândalo que dei naquele dia.

Coloco minha roupa mais simples para sair, é samba de raiz, coisa familiar, coisas das Laranjeiras. Tem bairro mais gostoso? Saímos de Botafogo até a praça São Salvador a pé, uma caminhada longa de uns quinze minutos e quando chegamos lá o lugar está delicioso. Pessoas bonitas, pessoas interessantes...

Minha amiga me mostra o preferido dela. Um homem alto, de casaco de linho e cabelo cacheados. Damos a volta na praça para ver o rosto dele e ele usa óculos com lentes tão grossas. Ele tem as mãos de quem me tocou há umas cinco semanas atrás no metrô.

Ele me vê, eu sorrio para ele. “Ele é gay, amiga, desista.” Ele estava com os amigos, bebia cerveja na latinha – Brahma, cerveja de homem. Ele era homem agora eu percebia. Ele era alto, os olhos azuis piscina, coisa que não tinha reparado no metrô.

Fico por ali uns dez minutos, pra vê se conversamos, se ele se aproxima de mim, seria legal levar aquilo adiante, né? Ele não parece achar, pois ainda que me olhe a todo momento, não demonstra interesse em deixar os amigos e vir em minha direção.

Eu deixo ele de lado e sambo.
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Entro no metrô pra ir trabalhar. Atrasado porque deixei o anterior passar, de tão cheio que estava. E logo que entro o vejo. De camisa listrada, branca com listras azuis, encostado na porta. Eu me posiciono ao lado direito da porta e ele se aproxima, sem nem esperar o metrô ficar cheio.

Fazemos uma viagem deliciosamente suja!
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A porta nem se abre e eu já o vejo, menos de uma semana desde nosso último encontro no metrô. Percebo que ele está com o mesmo casaco do dia que o vi pela primeira vez, um casaco de linha vermelho. O casaco que achei feio daquela vez. Ainda o acho.

Ele me olha, o metrô está muito vazio para ficar próximo dele. Eu me posiciono de um modo que depois eu possa ficar na sua frente, acho que ele percebe isso.

O metrô vai enchendo, conforme paramos nas estações, e ele continua na dele. Ele me ignora. Eu me aproximo mais e mais, mas ele coloca pessoas entre nós dois. Perto da penúltima estação para mim, eu desisto. Minha intenção agora é conseguir sair do metrô lotado, uma tarefa difícil, por sinal.

Eu nem precisava disso, eu tenho um namorado com que não responde minhas mensagens, que não sei por onde anda, que não atende meus telefonemas e que não entra mais no MSN.

Meus amigos dizem parar ter calma, ele pode ressurgir, pode ter acontecido algo mesmo. Se em três semanas não houve um dia que ele não deixou de me ligar, um dia que ele não liga não é um problema real.

Mas a sensação de rejeição é tão grande!
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Ouvindo: I Got Trouble - Christina Aguilera

5 críticas:

Klero disse...

Algumas situações valem pela quebra da mesmice e, às vezes, de tabus tb. Precisa aproveitar e curtir sem culpa =)

FOXX disse...

nossa
estou boquiaberto com a beleza desse texto
pena q no fim baixou a dramma queen e estragou tudo
mas eu vou ignorar a ultima parte e ficar só com a beleza desse texto

Fabiano (LicoSp) disse...

É bom aproveitar estes momentos né, se bem q por hora pensamos que é tudo culpa da carencia. Será q sem ela não fariamos diferente?!?

Boa sorte com o namo.

bjsDoLico

Arsênico disse...

Meminë... que loucura é essa?... e porque esse filhodapouthãin começou a ignorar vc?... pelo amor néah?...

Carente meego?... Somos 2...

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umBeijo!

Pollyanna disse...

Nao gosto de cabelos cacheados!! Nao chamam minha atencao!

Eu so acho que voce precisa dar um tempo de isso tudo! Te quieta um pouco!!